Solenidade da Santíssima Trindade
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A festa de hoje é uma justa homenagem à Santíssima Trindade, uma ação de graças ao Pai e à Sabedoria de Deus e ao Divino Amor, o qual durante o Ano eclesiástico se manifestou de um modo tão admirável na obra da Redenção. Por este motivo se celebra esta solenidade no final da primeira parte do Ano eclesiástico. Não somente neste dia como também em todas as Missas. Devemo-nos lembrar de render graças à Santíssimo Trindade. Sejam nossos cânticos de louvor o prelúdio do cântico perene: Santo, Santo. Santo é o Senhor, Deus dos exércitos, que os Eleitos em união com os Serafins cantam cheios de profunda reverência à Majestade de Deus.
À glória da Santíssima Trindade é oferecido o Santo Sacrifício. Unamo-nos à imolação da Vítima imaculada. Notemos na Santa Missa o Glória Patri, o Glória in excelsis Deo, o final das Orações, o Credo, o Súscipe, Sancta Trínitas, o Prefácio e o Pláceat tibi, Sancta Trínitas. (Dom Beda)
Introitus (Tb 12,6; Sl 8,2)
![]() ENEDÍCTA sit sancta Trínitas, atque indivísa únitas: confitébimur ei, quia fecit nobíscum misericórdiam suam. PS. Dómine Dóminus noster, quam admirábile est nomen tuum in univérsa terra! Glória Patri, et Fílio, et Spirítui Sancto. Sicut erat in princípio, et nunc, et semper, et in sǽcula sæculórum. Amen. BENEDÍCTA sit sancta Trínitas, atque indivísa únitas: confitébimur ei, quia fecit nobíscum misericórdiam suam. | BENDITA seja a Trindade santa e a Unidade indivisa. Louvemo-la, porque foi misericordiosa para conosco. SL. Ó Senhor, Senhor nosso, como é admirável o vosso Nome em toda a terra. Glória ao Pai, e ao Filho, e ao Espírito Santo. Assim como era no princípio, agora e sempre, e por todos os séculos dos séculos. Amém. BENDITA seja a Trindade santa e a Unidade indivisa. Louvemo-la, porque foi misericordiosa para conosco. |
Leitura da Epístola
São Paulo Apóstolo aos Romanos.(Rm 11,33-36)
Ó PROFUNDIDADE das riquezas da sabedoria e da ciência de Deus! Como são incompreensíveis os seus juízos e imperscrutáveis os seus caminhos! Quem conheceu o pensamento do Senhor? Ou quem foi o seu conselheiro? Ou quem Lhe deu primeiro alguma coisa para que tenha de receber em troca? Porque d’Ele, e por Ele, e n’Ele são todas as coisas. A Ele seja dada a glória por todos os séculos. Amém.
Evangelho (Mt 28, 18-20)Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: Todo o poder me foi dado no céu e na terra. Ide, pois, ensinai a todos os povos, e batizai-os em Nome do Pai e do Filho, e do Espírito Santo; e ensinai-lhes a observar tudo o que vos mandei. E eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. |
Homilia
O mistério da Santíssima Trindade, um único Deus em três Pessoas, transcende a inteligência humana e só pode ser acolhido pela fé. Não se enquadra nos limites da razão, pois Deus não pode ser analisado ou comparado segundo os parâmetros da experiência. A dificuldade surge quando buscamos compreendê-Lo apenas pela lógica, o que inevitavelmente gera dúvidas.
Na revelação divina, encontramos mistérios como a Trindade, a Imaculada Conceição, a Transfiguração, a Transubstanciação e a Consagração do pão e do vinho, que não podem ser apreendidos pelos sentidos. Diante deles, resta-nos crer, reconhecendo que para Deus nada é impossível. Esses mistérios são provas de fé, que nos convidam a confiar plenamente em sua palavra.
Jesus frequentemente se expressava em parábolas e enigmas, desafiando seus ouvintes a escutarem com os “ouvidos da fé”. Sua exortação, “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça”, não se referia à audição física, mas à disposição interior de acolher a verdade revelada. Assim, a fé é a chave que nos permite compreender e viver os mistérios divinos. Diante desse mistério que só pode ser acolhido pela fé, a liturgia nos conduz a um caminho de revelação progressiva:
Na primeira leitura, Moisés sobe ao Sinai com as tábuas de pedra e o Senhor se manifesta, revelando seu nome e sua essência: “Deus misericordioso e clemente, paciente, rico em bondade e fidelidade”. Moisés se prostra em adoração e suplica que Deus caminhe com o povo, pedindo perdão por suas faltas e que Israel seja acolhido como herança divina. Assim, Deus renova a Aliança, mostrando que sua fidelidade permanece mesmo diante da infidelidade humana.
Essa experiência revela a profundidade da relação entre Deus e Israel, ainda dentro dos limites do Antigo Testamento, quando o Mistério da Trindade não havia sido plenamente manifestado. A relação com Deus era expressa, sobretudo como Senhor, Criador, Altíssimo, Deus de Israel, e em alguns momentos como Pai, mas sem a clareza trinitária.
A ideia de Deus como Pai aparece, por exemplo, em Dt 32,6 (“Não é ele teu Pai, que te adquiriu?”) e Is 63,16 (“Tu, Senhor, és nosso Pai”). Contudo, essa paternidade era entendida de forma coletiva: Deus como Pai do povo, não em sentido pessoal e íntimo como no Novo Testamento.
O ponto central dessa etapa da revelação era destacar a unicidade e espiritualidade de Deus, bem como seus atributos de onipotência e misericórdia. Somente no Novo Testamento, em Cristo e no Espírito Santo, se manifesta plenamente o Mistério da Trindade. Jesus revela a intimidade filial (“Abbá, Pai”) e nos introduz nessa relação pessoal, completando o que antes era apenas vislumbrado.
A atitude de Moisés em prostrar-se, pedir perdão e suplicar que Deus caminhe com o povo pode ser apresentada como modelo de oração para nós hoje: reconhecer a misericórdia divina, pedir perdão e renovar nossa confiança na fidelidade de Deus.
O Êxodo mostra o Deus único, misericordioso e fiel. Paulo, na segunda leitura, revela que esse Deus é comunhão de três Pessoas. Ao dirigir-se aos cristãos de Corinto, ele utiliza uma fórmula trinitária, que também é pronunciada na Celebração Litúrgica: “A graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós”. Nesta saudação, manifesta-se a presença da Santíssima Trindade: um único Deus em três Pessoas. Trata-se de um mistério profundo e insondável, que a razão humana não é capaz de compreender plenamente, mas que a fé, dom concedido por Deus, permite acolher.
As três Pessoas Divinas, contudo, estão presentes em todas as coisas e em todos os momentos. Deus não é solitário nem egoísta: é comunidade de amor, é família, é comunhão perfeita de três Pessoas unidas no amor.
João, no Evangelho, apresenta o ápice da revelação: o Pai, por amor, enviou o seu Filho ao mundo não para condenar, mas para indicar o caminho da vida, e derramou sobre nós o Espírito (cf. Jo 7,37-39; Jo 20,22). Quem rejeita Jesus já escolheu a morte, pois a morte não faz parte dos planos divinos. O que Deus deseja é a vida, vida plena, abundante, que só se alcança no seguimento fiel a Cristo.
Nosso destino não é apenas a morte física, mas a ruína espiritual que nasce das más escolhas. E Deus não quer isso para nenhum de seus filhos. Ele deseja que todos vivam e se salvem. A prova desse amor é o preço altíssimo que pagou: entregou o seu Filho, que derramou o próprio sangue para nos resgatar.
A resposta que damos a Deus, fé ou incredulidade, já contém em si o juízo: salvação ou condenação. Mas é importante compreender: não é Deus quem nos condena. Somos nós mesmos que nos afastamos da vida quando recusamos a verdade. Jesus é claro: “Quem crê não é condenado; quem não crê já está condenado.” Não crer significa rejeitar a luz, recusar a proposta de vida nova, permanecer nas trevas.
O caminho da salvação passa pela cruz. Foi pela cruz que Jesus abriu para nós as portas do céu. A Luz veio ao mundo, mas muitos preferiram as trevas porque suas obras eram más. Não rejeitemos a graça! Busquemos Jesus, o sopro de Deus que nos deu o Espírito Santo, tornando-nos novas criaturas. É o Espírito quem ilumina nossa mente e nos guia pela vereda segura.
A Festa da Santíssima Trindade não existe apenas para aprofundarmos a doutrina sobre o mistério trinitário. Ela nos recorda nossa origem e nossa vocação: fomos criados à imagem e semelhança de Deus e chamados a viver em comunhão. Celebrar a Trindade é reconhecer que nosso estilo de vida deve ser reflexo desse mistério de amor, sinal de unidade, partilha e esperança em meio a um mundo marcado pela divisão e pelo individualismo.
Assim, esta festa nos convida a redescobrir quem somos e para onde caminhamos: filhos e filhas do Deus Uno e Trino, chamados a testemunhar, com gestos concretos, a comunhão que transforma e renova a humanidade.
Finalizemos esta homilia com uma pequena oração. Juntos, rezemos: Ó Santíssima Trindade, comunhão perfeita de amor, ensina-nos a viver unidos, a partilhar nossos dons e a caminhar na esperança. Que sejamos reflexo de Ti no mundo, para que todos reconheçam em nós a tua presença. Renova em nós a fé recebida no Batismo e fortalece nossa missão de testemunhar o Evangelho com alegria. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém!
Pe. Afonso Gomes de Melo.
Itamarandiba/MG































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