Preparação para a Quaresma: Da Septuagésima à Quaresma
- 15 de fev.
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rmãos: Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos Anjos, se não tivesse caridade, seria como o bronze que soa ou como o címbalo que tine. Se tivesse o dom da profecia, conhecesse todos os mistérios e possuísse toda a ciência, e se tivesse toda a fé, de modo a transportar os montes, mas não tivesse a Caridade, não seria nada. E ainda que distribuísse todos os meus bens para mantimento dos pobres, e entregasse meu corpo para ser queimado, se não tivesse a Caridade, nada me aproveitaria. A caridade é paciente, é benigna; a caridade não é invejosa, não trata levianamente, não se ensoberbece, não é ambiciosa, não cuida [apenas] de seus interesses, não se irrita, não julga mal, não folga com a injustiça, porém alegra-se com a verdade; tudo suporta, tudo crê, tudo espera, tudo sofre." (1 Cor 13, 1-13) [1]
Na liturgia tradicional, durante a pré-Quaresma, a Missa dominical já é celebrada com paramentos roxos, embora as Missas semanais não o sejam. Na Santa Missa e no Ofício, cessa o cântico de Aleluia até a Páscoa . Os domingos têm estações romanas, assim como todos os dias da própria Quaresma. Nesses domingos, nos tempos antigos, os catecúmenos eram levados à estação prescrita, a fim de participar da Missa e ouvir leituras robustas e orações cada vez mais profundas, passando assim por uma catequese que os ajudava a compreender o que ouviam. As orações e leituras para as Missas dos domingos pré-quaresmais foram compiladas por São Gregório Magno, Papa numa época de grande turbulência e sofrimento, marcada pela migração em massa e pela guerra, o que nos recorda os tempos atuais. [2]
A Septuagésima
“A Septuagésima é o nono domingo antes da Páscoa e o terceiro antes da Quaresma, conhecido entre os ortodoxos como ‘Domingo do Filho Pródigo’, do Evangelho de São Lucas, que eles leem neste dia; chamado também pelos latinos de Dominica Circumdederunt, em referência à primeira palavra do intróito da Missa. Na literatura litúrgica, o nome ‘Septuagésima’ aparece pela primeira vez no sacramentário gelasiano. Amulário de Lião afirma que a Septuagésima representa misticamente o cativeiro babilônico de setenta anos, começando neste domingo com a antífona Circumdederunt me undique (‘Cercaram-me de todos os lados’) e terminando no sábado depois da Páscoa, quando a Igreja canta Eduxit Dominus populum suum (‘O Senhor conduziu o seu povo’)” (Septuagésima, in The Catholic Encyclopedia). [3]
A Sexagésima
Postamos anteriormente uma catequese alusiva ao Domingo da Septuagésima (confira aqui). Nesse Domingo complementamos a catequese, falando dos dois domingos subsequentes, os quais, conforme a Liturgia Tradicional ( Forma Extraordinária do Rito Romano) são preparatórios para a Quaresmas propriamente dita.
O Domingo da Sexagesima é o segundo domingo antes do início da quaresma, o que o torna o oitavo domingo antes da Páscoa. Tradicionalmente, este seria o segundo dos três domingos (entre a Septuagesima e a Quinquagesima) em preparação para a Quaresma. Sexagesima significa literalmente “sexagésima”, embora caia apenas 56 dias antes da Páscoa. Em teoria, leva o nome do Domingo da Quinquagésima, que é 49 dias antes da Páscoa, ou 50 se incluirmos a Páscoa.
Nos diz, sobre o período da Sexagesima, o Missal Romano Quotidiano:
“As longas páginas da Bíblia, que sucessivamente se irão lendo em Matinas, anunciam o mistério pascal. Depois de Adão, Noé, o segundo pai do gênero humano, símbolo da renovação da humanidade: « Experimente e veja o mundo a restauração daquilo que jazia por terra, a renovação do que tinha envelhecido e o regresso de todas as coisas à integridade primeira, por obra daquele mesmo que lhes tinha dado a existência » (Sábado Santo, antigo ofício).
É no seio da Igreja, figurada pela arca, que a salvação se realiza doravante; e já não somente oito pessoas nela se abrigam, mas a multidão daqueles que renasceram nas águas baptismais (epístola da Sexta-Feira de Páscoa). Como no domingo passado, os cânticos da missa acentuam o apelo a Deus pungente e confiante, brotando do mais fundo da nossa miséria.
A escolha da epístola deve-se certamente ao facto de a estação se celebrar em S. Paulo extramuros é uma das mais belas páginas do grande Apóstolo.
O Sermão da Sexagésima - Padre Antônio Vieira
O Padre Antônio Vieira em seu célebre sermão sobre a Sexagésima faz uma crítica apurada sobre o caráter dos Cristãos em relação a sua hipocrisia pecadora e quanto a necessidade de conversão, em um período propício para isto:
“Semeadores do Evangelho eis aqui o que devemos pretender nos nossos sermões, não que os homens saiam contentes de nós, senão que saiam muito descontentes de si; não que lhes pareçam bem os nossos conceitos; mas que lhes pareçam mal os seus costumes, as suas vidas, os seus passatempos, as suas ambições, e enfim todos os seus pecados.
Contanto que se descontentem de si, descontentem-se embora de nós. “Si hominibus placerem, Christus servus non essem”, dizia o maior de todos os pregadores, São Paulo. “Se eu contentara aos homens, não seria servo de Deus”.
Oh contentemos a Deus, e acabemos de não fazer caso dos homens! Advirtamos, que nesta mesma Igreja há tribunas mais altas, que as que vemos: Spectaculum facti sumus Deo, Angelis et hominibus. Acima das tribunas dos Reis, estão as tribunas dos Anjos, está a tribuna, e o tribunal de Deus, que nos ouve, e nos há de julgar. Que conta há de dar a Deus um pregador no Dia do Juízo? O ouvinte dirá: Não mo disseram; mas o pregador? Vae mihi, quia tacui. Ai de mim, que não disse o que convinha! Não seja mais assim, por amor de Deus, e de nós.” [Pe Antônio Vieira – Sermão da Sexagésima.]
A Quinquagesima - Último Domingo antes da Quaresma
O domingo da Quinquagésima é o último domingo antes do início da Quaresma, o domingo antes da Quarta-Feira de Cinzas, o que o torna o sétimo domingo antes da Páscoa. Tradicionalmente, este era o terceiro dos três domingos (após a Septuagesima e a Sexagesima) de preparação para a Quaresma.
Quinquagesima significa literalmente “quinquagésimo”. Falta 49 dias para a Páscoa, ou 50 se contarmos a própria Páscoa. Da mesma forma, diz-se que o Domingo de Pentecostes ocorre 50 dias após a Páscoa, mas o número é calculado incluindo o domingo da Páscoa.
Mais uma vez, trazemos aqui o que o Missal Romano nos diz:
“Uma nova era abre na história. Depois de Adão, pai do género humano » (Septuagésima); depois de Noé, pai das novas gerações (Sexagésima), surge hoje a figura magnífica de Abraão, pai de todos os crentes, que nos é apresentado nas lições de matinas.Porque acreditou na realização das divinas promessas, é que Abraão é nosso pai na fé. E porque aceitou sacrificar Isaac, o filho da promessa , sobre o qual repousava toda a sua esperança, é que Deus lhe multiplicou a posteridade como as estrelas do céu e as areias do mar.
No dizer de S. Paulo, somos nós essa posteridade Cristo e nós ao mesmo tempo; e Isaac, destinado à imolação e arrancado depois à morte, é a figura de Jesus, morto e ressuscitado.Eis que subimos para Jerusalém… Ao lado do anúncio da Paixão, o evangelho recorda-nos, na cura do cego de nascença, o dom da fé que liberta o homem da cegueira, das trevas do pecado. A epístola, hino entusiasta de S. Paulo à caridade, sublinha a transformação sobrenatural que a Redenção de Cristo deve operar nas almas”.
O que Deus quer de mim neste tempo tão santo da Septuagésima, Sexagésima e Quinquagésima?
O texto nos propõe em diversos momentos, a reflexão quanto algo muito comum, porém de vital importância: “Preparação”.
As leituras da missa nos oferecem subsídios para interpretar as características deste tempo de forma a nos indicar caminhos para sedimentarmos a mensagem de Cristo, que está para sofrer enormemente por todos os pecadores, que ele salvará. Independentemente de credo, raça, origem, ele irá salvar.
A liturgia é rica; a paramentação, digníssima; a contrição e exame de consciência são devidamente necessários como passaporte para vivenciar “os espinhos na carne de Cristo”. Não há como, para se realmente entrar no tempo da paixão de forma digna, abster-se do jejum, oração e da penitência.
É tempo de lavar vigorosamente a taça da alma, suja pelos pecados que nos acometem, para deixar o sangue redentor de Cristo tingir suas paredes cristalinas.
A pergunta aqui é: “O que Deus quer de mim neste tempo? Conforta-me pensar que ele quer ardentemente que sejamos dignos de suas promessas, de seu amor, de sua paixão. Quer que sejamos fiéis servos para que, junto a Maria, abracemos seu corpo ferido pela devassidão humana, quando ele for tirado da Cruz e entregue aos seus.
Quer que, como os apóstolos que vivenciaram a luz de seu corpo glorioso no Tabor, sejamos também seus apóstolos para estarmos com ele no momento derradeiro da paixão. Mas também com olhos esperançosos em sua ressurreição vitoriosa, como Maria que se volta aos céus e o anjo, à porta do sepulcro diz: “Resurrexit sicut dixit”
Ad Maiorem Dei Gloriam
Referências
[1] Trecho da Primeira Leitura - Missa da Quinquagégima
[1] Pe. Paulo Ricardo
Missal Quotidiano (D. Gaspar Lefebvre, 1963).































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