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A Música que vem de Deus: canto e música na liturgia

18 de nov. de 2017
11 min de leitura


Exultate justi in Domino, Ludovico Grossi da Viadana,

Cantoria Sine Nomine di Castelnuovo



"Confitemini

Domino in cithara.

Exultate Ei cum Tremore"

"Louvai ao Senhor com a harpa.

Exultai-O com temor"

O lema do nosso Brasão, em suas cores, remete ao Brasão da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney, da qual fazemos parte. Para entender o seu significado vamos falar primeiro do brasão que nos inspirou:

O Brasão da Administração Apostólica tem aspectos da heráldica eclesiástica que refletem a devoção de seus sacerdotes a Nossa Senhora, e a São João Maria Vianney. O campo do escudo eclesiástico é azul, cor associada a Nossa Senhora, significando que a Administração apostólica é consagrada a ela. A cruz portando a estola são dois elementos que fazem referência a São João Vianney, que é o padroeiro dos sacerdotes, fazendo alusão à célebre frase dito por ele no final da vida: "Como é bom morrer quando se viveu sob a cruz!"

O brasão da Associação dos Músicos da Administração Apostólica, tem o dourado em sua moldura, significando toda a riqueza da Igreja, o fundo azul remete o mesmo caráter mariano da nossa Administração Apostólica. A Harpa Dourada tem em sua prancha o Cordeiro Imaculado, cujo significado honrar a realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo, com uma música que seja digna ao culto. O brasão foi pensado, desenvolvido segundo as seis leis da heráldica,respeitando-se as regras para o "metal", o "forro", e as "peças honrosas", cada qual em seu devido lugar.

Escolhemos a Peça "Exultate justi in Domino" de Ludovico Grossi da Viadana, no vídeo de abertura, justamente por conter a primeira parte do nosso lema: "Confitemini Domino in cithara.

Esperamos que esta página seja um local propício para divulgação da música sacra e de bons artigos para reflexão de nossos internautas.

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A Música que vem de Deus: canto e música na liturgia

A música sempre teve um lugar central na liturgia católica. Como o silêncio, é uma linguagem necessária para entrar em sintonia com a beleza de Deus, para descobrir a sua presença. Como sempre que se trata do Amor não há lugar para a pressa, nem cálculos: cantamos porque queremos ter tempo para Deus.

ANO LITÚRGICO25 de Abril de 2017

«Cantemus Domino, gloriose enim magnificatus est!” Cantarei ao Senhor, gloriosa é sua vitória»[1]. Imediatamente, a liturgia da Vigília Pascal une este canto com o relato da passagem de Israel através do Mar Vermelho: a música, cheia de alegria, surge espontânea ao tocar a proximidade de Deus. O prodígio das águas divididas se converteu, para o povo escolhido, em um emblema da proximidade de Deus: os salmos o recordam com frequência[2]. No tempo da Igreja, esse evento nos fala do batismo, da Cruz, do céu... Fala-nos da nossa vida, e da Vida que Deus tem preparado para nós na outra margem, que «não é um simples embelezamento desta vida atual: ela supera nossa imaginação, porque Deus nos surpreende continuamente com o seu amor e com a sua misericórdia»[3].

Diante «do Deus das surpresas»[4], um Deus que sempre faz novas as coisas[5], «Sobram as palavras, porque a língua não consegue expressar-se; começa a serenar-se a inteligência. Não se raciocina, fita-se! E a alma rompe outra vez a cantar com um cântico novo, porque se sente e se sabe também fitada amorosamente por Deus, em todos os momentos»[6]. Diante do Deus que nos surpreende com a sua novidade, a glorificação e a adoração brotam espontaneamente: o canto e o silêncio. Um e outro estão profundamente relacionados, porque expressam o que as simples palavras não conseguem dizer. Por isso, a liturgia os reserva para seus momentos mais sublimes «A Igreja canta – disse alguém – porque falar não seria bastante para a sua oração. – Tu, cristão – e cristão escolhido –, deves aprender a cantar liturgicamente»[7].

Um cântico novo

Humanamente insolúvel. Assim era a situação do Povo escolhido, encurralado entre o Mar Vermelho e o exército egípcio. Na frente, a barreira do mar; às suas costas, a força bélica das armas. «O inimigo tinha dito: ‘Vou perseguir, alcançar, repartir os despojos, saciar-me deles. Vou tirar minha espada e despojá-los com minha mão’»[8]. Assim se encontra também a Igreja, tantas vezes assediada por aqueles que querem apagá-la da face da terra, ou pelo menos eliminar o seu caráter sobrenatural.

Porém Deus está conosco, como estava com os israelitas. Perante os impossíveis humanos, brilha a sua glória em contraste com a poder do Faraó e dos faraós da história: de modos inesperados, o mar se abre e nós passamos, e se fecha de novo diante do inimigo. «Sopraste com teu vento, e o mar os cobriu; afundaram como chumbo em águas profundas.»[9]

A narração sagrada não revela os pensamentos de Israel, enquanto cruzavam o mar pelo caminho seco, com muralhas de água à direita e à esquerda. Só ao final, a Bíblia volta seu olhar sobre os israelitas para mostrar sua reação. «O povo temeu o Senhor e teve fé no Senhor e em Moisés seu servo. Então Moisés e os israelitas cantaram ao Senhor este cântico: “Cantarei ao Senhor porque estupenda foi a vitória»[10] – temor e renovada fé em Deus, que se derrama no primeiro canto novo[11]mencionado pela Escritura.

Não conhecemos essa música. Ninguém a recolheu e nem a tradição oral trouxe-a a nós. Porém devia ser sincera: brotava de um profundo agradecimento, expressava um intenso sentido de adoração. Devia ser impressionante: qualquer testemunha externa teria podido tocar a presença de Deus naquele canto, como o tocaram aqueles que o entoaram.

Depois deste episódio, os israelitas encontraram mais dificuldades no deserto. Primeiro, as águas amargas de Mará, que se tornam doces devido à madeira, figura da Cruz[12]; depois, o rigor do deserto de Sin, que o Senhor aliviava com o maná e as codornizes; as águas de Massa e Meriba... Deus sempre respondia às dificuldades e o povo renovava o seu cantar. A esperança era chegar ao momento em que tudo seria já um canto novo.

A vinda de Cristo inaugurou a salvação definitiva. «A salvação pertence ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro»[13]. O canto novo, que já não passa, começou a ser entoado. Ao mesmo tempo, sem dúvida, esperamos o momento em que será pleno, como nos é apresentado no Apocalipse[14]. De certo modo, a Igreja já chegou à terra Prometida, porém continua a sua peregrinação pelo deserto: por isso na liturgia fala de si mesma como «peregrinans in terra»[15]. Na realidade, “novo” na linguagem bíblica, «não evoca tanto a novidade exterior das palavras como a plenitude última que sela a esperança. Por conseguinte, canta-se a meta da história na qual finalmente será silenciada a voz do mal (...). Mas este aspecto negativo é substituído, com um espaço muito maior, pela dimensão positiva, a do novo mundo jubiloso que está para se afirmar»[16].

A música do céu, na terra

Quando o Cordeiro «recebeu o livro, os quatro Seres vivos e os vinte e quatro Anciãos prostraram-se (...) Todos tinham harpas e taças de ouro cheias de incenso, que são as orações dos santos. E entoaram um cântico novo»[17]. A Sagrada Escritura não deixa, em sua sobriedade, de mencionar o canto no céu. É lógico que o faça, porque «Deus não é solitário, mas amor glorioso e gozoso, difusivo e luminoso»[18]. A imaginação pode sugerir-nos a música que acompanhou a Virgem Maria quando a Trindade Beatíssima a recebeu no céu. Exércitos de anjos esperam a sua rainha que está para chegar em corpo e alma. A música é solene; transborda afeto, alegria, o delicado equilíbrio da beleza. A Virgem aparece, esplendorosa, e o Filho, que introduziu a humanidade no seio da Trindade, recebe sua Mãe.

A liturgia terrena, também quando não conseguimos perceber toda a sua beleza, talvez pelas circunstâncias externas ou pelas nossas próprias, é «o culto do templo universal que é Cristo ressuscitado, cujos braços estão abertos na cruz para atrair todos ao abraço do amor eterno de Deus. É o culto do céu aberto»[19]. Por isso os prefácios da Missa terminam sempre convidando a todos a cantar o Sanctus junto aos anjos e os santos. No Sanctus a terra e o céu se unem: «nos associamos cheios de gratidão a este cantar de todos os séculos, que une céu e terra, anjos e homens»[20]. « Eu aplaudo e louvo com os Anjos. Não me é difícil, porque sei que me encontro rodeado por eles quando celebro a Santa Missa. Estão adorando a Trindade»[21].

Certamente, no relato do anúncio dos anjos aos pastores, «Lucas não disse o que os anjos cantaram”. Ele escreve muito sobriamente: o exército celestial louvava a Deus dizendo: “Glória a Deus no céu...” (Lc 2, 13s). Porém os homens sempre souberam que a linguagem dos anjos é diferente da dos homens; que precisamente esta noite a mensagem gozosa foi um canto onde brilhou a glória sublime de Deus. Por isso, este canto dos anjos foi percebido desde o princípio como música que vem de Deus, mais ainda, como convite a unir-se ao canto, a alegria do coração por ser amados por Deus»[22].

Esse é o marco em que se inscreve a rica criatividade musical da liturgia, que começou a desenvolver-se com a oração de Israel: o esforço para entrar em sintonia com a beleza de Deus, para chegarmos ao céu. «A liturgia é tempo de Deus e espaço de Deus, e nós devemos entrar ali, no tempo de Deus, no espaço de Deus e não olhar o relógio”. A liturgia é precisamente entrar no mistério de Deus; deixa-nos levar ao mistério e estar no mistério»[23]. São Josemaria, nessa mesma linha, escrevia que na Santa Missa «os relógios deveriam parar»[24]: diante de Deus não cabe uma aproximação meramente instrumental, pragmática. «O aparecimento da beleza, da formosura, nos torna alegres sem ter que perguntarmos por sua utilidade. A glória de Deus, de onde provém toda a beleza, faz saltar em nós o assombro e a alegria»[25].

Ao alcance de todos

A participação de cada um no canto litúrgico manifesta também o carinho, o «sentido do mistério»[26] que nos leva a pôr entre parênteses os critérios de eficácia próprios de outros contextos. Sem negligenciar as circunstâncias profissionais e familiares de todos, muitas vezes, pode-se dar à celebração litúrgica esse toque que ajuda, de modo concreto, a adorar a Deus. Talvez nisto iremos contra a corrente pragmatista da qual também somos filhos; mas também assim, dando à liturgia o seu tempo, com o resplendor simples da nossa fé, levamos o mundo a Deus: o tornamos presente na agitada vida moderna, que não sabe ter tempo para Ele. «Não é estranho que muitos cristãos – pausados e até solenes na vida social (não têm pressa), nas suas pouco ativas atuações profissionais, à mesa e no descanso (também não têm pressa) – se sintam apressados e apressem o Sacerdote na sua ânsia de encurtar, de abreviar o tempo dedicado ao Santíssimo Sacrifício do Altar?»[27] A fé «é amor e por ela cria poesia e cria música»[28]: se a nossa fé é viva, também saberemos ser iguais nisto aos primeiros cristãos, a quem São Paulo animava a cantar e celebrar o Senhor com todo o coração[29].

Não é, pois, a música litúrgica uma questão de sentimentalismo ou estética: é questão de amor, de querer «tratar a Deus com ternura de coração»[30], e não «de uma maneira oficial e seca, com uma fé que não tem vibração»[31]. Do mesmo modo que sentiríamos falta da música em um momento de festivo da vida, é natural que queiramos dar esse realce à liturgia. Às vezes, na celebração cotidiana, bastará um breve canto, piedoso: Adoro te devote, Ave Maris Stella, Rorate Coeli, etc. nas festas, em função da habilidade dos fiéis, a música terá maior protagonismo, cantando em algumas partes da Missa – o Gloria, o Sanctus, etc.– e talvez com o acompanhamento do órgão.

Ao longo dos séculos, a Igreja formou uma preciosa tradição de música sacra. A novidade do culto cristão levou à busca de novas formas poéticas e musicais para expressar como a oração se eleva a níveis inusitados: «Corresponde aos homens cantar Salmos, porém cantar hinos corresponde aos Anjos e àqueles que levam uma vida como a dos Anjos»[32]. Assim, na liturgia romana destaca-se o gregoriano como canto próprio[33], com o qual podemos orar durante a celebração da Santa Missa: por exemplo, o Missal Romano do altar apresenta as notas para poder cantar o Per ipsum ao final da Oração Eucarística, assim como outras orações.

Dentro do grande repertório de música sacra cristã, se encontram cantos à altura de todas as sensibilidades e capacidades: desde melodias simples até polifonias complexas. Também há cantos mais recentes que, dentro da própria identidade cultural, sabem exprimir o mistério de Deus de forma musical. Tanto as peças mais tradicionais como as modernas se encontram em livros publicados para a ajuda dos fiéis; também pode-se realizar cópias dos cantos mais adequados a cada lugar.

Este também é um campo promissor para as pessoas com uma preparação maior musical: o esforço para dedicar sua criatividade para tornar mais luminoso o culto torná-los-á também mais generosos com Deus, porque dedicando esse tempo ao Senhor e aos outros estão oferecendo o sacrifício de Abel[34]. Em todo caso, vale a pena colocar aqui pelo menos o entusiasmo com que preparamos a comemoração de um aniversário: aprendendo e ensaiando cânticos que pertencem à cultura cristã, expressam uma autêntica sensibilidade litúrgica e nos dão oportunidade de fazer oração. De fato, na liturgia estamos com Deus, e Ele gosta que cantemos, porque às vezes falar não basta.

A linguagem da adoração

A música, na liturgia, não é um mero acompanhamento ou ornamentação; nem é a interpretação de um tema religioso que chama a atenção para si: em um e outro caso, a música ficaria paralela à celebração, quando se trata de que seja uma só coisa com ela[35]. A verdadeira música litúrgica é oração, é liturgia; não nos dispersa, não se limita a dar-nos uma alegria sensível ou um prazer estético: recolhe-nos, nos coloca no mistério de Deus. Leva-nos à adoração, que tem no silêncio uma de suas linguagens privilegiadas: «o silêncio – nos recorda o Papa – guarda o mistério»[36]. Se a música é de Deus, não competirá com o silêncio: nos levará ao silêncio verdadeiro, do coração.

Os instantes de silêncio que a liturgia prevê – antes de iniciar a Missa, no ato penitencial, nos mementos, na consagração, etc. – são convites para recolher-nos em adoração. Preparam-nos para o momento da comunhão, porque «para comungar verdadeiramente com outra pessoa devo conhecê-la, saber estar em silêncio perto dela, escutá-la, olhá-la com amor. O verdadeiro amor e a verdadeira amizade vivem sempre desta reciprocidade de olhares, de silêncios intensos, eloquentes, cheios de respeito e veneração, de maneira pessoal e não superficial»[37].

«Tu, eu, adoramos ao Senhor?”», nos pergunta o Papa, dirigindo-nos para o centro íntimo da liturgia, que será nosso céu. «Recorremos a Deus só para pedir, para agradecer, ou nos dirigimos a Ele também para adorá-lo? Mas, então, que quer dizer adorar a Deus? Significa aprender a estar com Ele, a parar para dialogar com Ele, sentindo que sua presença é a mais verdadeira, a melhor, a mais importante de todas (...); adorar o Senhor quer dizer que estamos convencidos diante dele de que Ele é o único Deus, o Deus de nossa vida, o Deus de nossa história»[38].

Carlos Ayxelà

Fonte: Opus Dei

Referências Bibliográficas

[1] Ex 15,1.

[2] Cfr. Sal 65 (66); 77 (78); 105 (106); 135 (136).

[3] Francisco, Ângelus, 10-XI-2013.

[4] Francisco, Homilia em Santa Marta, 20-I-2014.

[5] Cfr. Ap 21,5.

[6] São Josemaria, Amigos de Deus, 307

[7] São Josemaria, Caminho, 523

[8] Ex 15,9.

[9] Ex 15,10.

[10] Ex 14,31-15,1.

[11] Cfr. Sal 32 (33); 39 (40); 95 (96); 97 (98); 143 (144); 149.

[12] Cfr. Ex 14,22-25.

[13] Ap 7,10.

[14] Ap 5,9-10; 14,3.

[15] Missal Romano, oração Eucarística III

[16] Bento XVI, Audiência 25/01/2006

[17] Ap 5,8-9

[18] Bento XVI, Homilia, 19/02/ 2012.

[19] Bento XVI, Audiência, 3/10/2002.

[20] Bento XVI, Homilia, 24/12/2010.

[21] São Josemaria, É Cristo que Passa, 89.

[22] Bento XVI, Homilia, 24/12/2010.

[23] Francisco, Homilia, 10/02/2014.

[24] São Josemaria, Forja 436

[25] Bento XVI, Homilia, 24/12/2010.

[26] João Paulo II, Enc. Ecclesia de Eucharistia, 49

[27] Caminho, 530

[28] Bento XVI, Audiência, 21/05/2008

[29] Cf. Ef 5,19; Col 3,17.

[30] Amigos de Deus, 167

[31] Forja, 930.

[32] Orígenes, Sel. in psalmos, en Sal 119 [118],71.

[33] Cf. Concilio Vaticano II, Const. Sacrosanctum concilium (4-XII-1963), 116.

[34] Cf. Missal Romano, Oração Eucarística I, Cf. Gn 4,4.

[35] Cfr. Concilio Vaticano II, Const. Sacrosanctum Concilium, 112.

[36] Francisco, Homilia em Santa Marta, 20/12/2014.

[37] Bento XVI, Homilia, 7/06/2012.

[38] Francisco, Homilia, 14/04/2013.


 
 
 

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